Viagem a Zâmbia: Piscina do Diabo, Cataratas Vitória, Rinocerontes a pé e outros absurdos reais

Sempre tive uma vontade enorme de conhecer as Cataratas Vitória, as Cataratas do Iguaçu versão “modo hard” africano. E realmente são absurdas: uma das maiores quedas d’água do planeta, dividida entre Zâmbia e Zimbábue. O rio Zambeze despenca mais de 100 metros e se estende por quase 1,7 km, formando uma parede contínua de água que os povos locais chamavam de Mosi-oa-Tunya — “a fumaça que troveja”. E o nome não é figura de linguagem, não: o barulho é de estremecer o peito, e a névoa sobe tanto que parece fumaça de incêndio. Pra você ter ideia, quando eu estava na fronteira, sem conseguir ver ou ouvir nada, falei pro guia: “nossa, tá chuviscando”. Ele respondeu: “não, isso é a névoa da cachoeira”. Eu estava a quilômetros de distância. A névoa já tava chegando antes de mim.

Como as cataratas marcam a fronteira natural entre Zâmbia e Zimbábue, você pode escolher ficar em Livingstone ou em Victoria Falls. Eu fiquei do lado zambiano porque Livingstone é muito maior e tem bem mais infraestrutura — no Zimbábue, a cidade é pequena e tudo parece girar só em torno da cachoeira. Viajei em novembro, que é baixa temporada. Foi ótimo porque não tinha multidão, deu pra ir na Piscina do Diabo com tranquilidade (vou falar dela depois) e, de quebra, não peguei chuva em nenhum dia. Mas, ao mesmo tempo, dava até uma pena: eu pagava os passeios e ia sozinho em todos. A minivan de oito lugares chegava no Airbnb, ou então aqueles carros de safári com doze bancos, e… só eu. Até hoje não sei se eles realmente tiveram lucro comigo — talvez eu tenha sido o VIP involuntário da semana.

Chegando na Zâmbia

O caos do Visto: entenda por que tirar visto para a África Austral pode virar novela

Nenhuma viagem para a África está completa se você não tem um probleminha com algum visto. Nessa viagem não pode ser diferente. Precisamos de visto para viajar tanto para a Zâmbia quanto para o Zimbábue. Nós e várias nacionalidades. Para “facilitar” eles criaram um visto chamado “KAZA Visa” que é um visto que assim que você tira, ele te dá direito a entrar na Zâmbia, no Zimbábue e em Botsuana ao mesmo tempo, então você só tira uma vez. Você consegue esse visto no aeroporto, na hora que chega do voo, mas também consegue em um processo online onde você provê todos os documentos que eles pedem e em um prazo de até 15 dias úteis você está com o visto pronto. Como geralmente esses guichês do aeroporto para você conseguir o visto tem uma fila imensa, eu resolvi entrar com o processo do KAZA online porque, bem, não tinha como dar errado, né? Será se tinha como? Na África? Lógico que não.

Dei entrada no visto, pus todos os documentos que eles me pediram e só esperei os meus 15 dias úteis. Passou um, passou dois, passou cinco, dez, quinze, vinte dias depois eles me mandam uma mensagem pedindo para eu escrever uma “carta de apresentação” minha. Para que? Sabe lá Deus para que. Só sei que li o regulamento inteiro e não tinha em lugar nenhum pedindo essa carta de apresentação. Vamos lá, faz a carta de apresentação que eles pediram. Pedi pro Chatgpt fazer e esperei. Demorou cinco dias, me responderam que a carta precisa ser assinada. Assinei a maldita carta eletronicamente. Cinco dias depois me respondem que a carta não tava assinada. Lá vai Claudiomar imprimir a carta, assinar a mão e enviar novamente. Dois dias depois de eu ir embora da Zâmbia e um mês e meio depois da data que eu iniciei o processo, eu recebo o visto. 

Sim, paguei duas vezes pelo visto, uma vez pela internet e outra no aeroporto. Fila no aeroporto? Quando cheguei no aeroporto só tinha eu e uma pessoa para poder conseguir o KAZA Visa. Paguei duas vezes de trouxa mesmo.

Foi que nem Moçambique, que eu dei entrada no visto da Embaixada três meses antes de viajar, me deram 10 dias úteis de prazo, e até hoje não recebi a resposta. Só dou um conselho. Quando for viajar a África, tenha paciência.

A história da Zâmbia explicada: colonização, Livingstone e independência

A história da Zâmbia se confunde com a própria exploração europeia na África. Antes da chegada dos colonizadores, o território era habitado por diferentes povos bantos, que viviam de agricultura, caça e comércio local. A região era cortada por antigas rotas de marfim e escravos, controladas por chefes tribais e comerciantes vindos da costa oriental. Foi nesse cenário que surgiu o nome mais icônico ligado ao país: David Livingstone, o missionário e explorador escocês que se tornou uma lenda da era vitoriana. No século XIX, ele cruzou o continente africano em expedições que misturavam fé e curiosidade científica, com o objetivo de “levar o cristianismo, o comércio e a civilização” — como dizia o lema colonial britânico. Em 1855, foi ele quem “descobriu” para o Ocidente as Cataratas Vitória, batizando-as em homenagem à rainha britânica, e marcando o início do interesse europeu pela região.

David Livingstone se tornou um herói nacional na Inglaterra — o missionário que enfrentava o desconhecido da África em nome da ciência, da fé e do império. Depois de alguns anos ficou um bom tempo sem dar notícia e, portanto, foi dado como morto. Foi então que o jornal New York Herald enviou o repórter Henry Morton Stanley para encontrá-lo, numa das missões mais improváveis e caras do jornalismo do século XIX. Stanley buscou, buscou até que em 1871, depois de meses de busca, finalmente encontrou Livingstone às margens do Lago Tanganica e pronunciou uma frase que virou lenda: “Dr. Livingstone, I presume?”. A cena virou símbolo da era das explorações e do início do domínio colonial europeu. Livingstone morreria poucos anos depois, em 1873, mas seu corpo foi levado de volta a Londres e enterrado na Abadia de Westminster — uma honra reservada a heróis nacionais. Seu nome ficou para sempre ligado à Zâmbia, não apenas pela cidade que o homenageia, mas por ter sido o primeiro europeu a colocar o país no mapa do mundo ocidental.

Mesmo sendo um símbolo do colonialismo europeu, David Livingstone é respeitado na Zâmbia porque denunciou o tráfico de escravos e tratou os africanos com dignidade incomum para sua época. Ele via o continente com curiosidade genuína, não apenas como território a ser explorado. Por isso, muitos zambianos o lembram mais como um humanista e explorador do que como um colonizador.

A Zâmbia conquistou sua independência em 1964, quando deixou de se chamar Rodésia do Norte, nome herdado do período colonial britânico. Antes disso, o país vivia sob um sistema segregado, com bairros, escolas e até bancos separados para brancos e africanos — uma divisão social que lembrava o apartheid da vizinha África do Sul. Com a independência, liderada por Kenneth Kaunda, essa estrutura começou a mudar: as terras e instituições foram nacionalizadas, e a ideia de uma identidade nacional passou a ser prioridade. Hoje, a Zâmbia é um país multicultural e multilíngue, com sete línguas oficiais regionais — bemba, nyanja, tonga, lozi, lunda, kaonde e luvale — além do inglês, que continua sendo o idioma oficial do governo e da educação.

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Uma curiosidade pouco conhecida é que a Zâmbia teve, em 2015, o primeiro presidente branco da África Subsaariana desde o fim do apartheid. Foi Guy Scott, vice-presidente que assumiu interinamente após a morte de Michael Sata. Nascido na Zâmbia, filho de escoceses, ele governou por apenas alguns meses — mas entrou para a história pelo ineditismo.

Chegando a Livingstone: Por que atravessar a fronteira Zimbábue–Zâmbia a pé foi uma das melhores partes da viagem

Para chegar à Zâmbia, peguei um voo de Joanesburgo, África do Sul — um dos principais hubs aéreos da África — até a cidade de Victoria Falls, no Zimbábue. Do aeroporto, tomei um táxi até a fronteira e, de lá, segui caminhando até a Zâmbia. Sim, andando mesmo: é uma caminhada de uns 20 minutos entre uma imigração e outra. Eu até poderia ter pago cinco dólares para atravessar de táxi, mas vou te dizer… andar foi bem mais legal. No caminho, parei na ponte que separa os dois países, construída no início do século passado a mando de Cecil Rhodes como parte do ambicioso plano de criar uma ferrovia ligando a Cidade do Cabo, na África do Sul ao Cairo, no Egito. Só essa parada na ponte já valeu os cinco dólares economizados. Ainda vi uma fila imensa de caminhões esperando para cruzar a fronteira. Até conversei com um caminhoneiro que disse que às vezes ficam o dia inteiro ali, só esperando autorização para atravessar.

Como já disse, existe a cidade de Victoria Falls do lado zimbabuano, feita praticamente só para servir aos turistas das cataratas. Porém preferi ficar em Livingstone, na Zâmbia, porque ela é uma cidade muito maior e mais estruturada: são quase 180 mil habitantes, contra menos de 40 mil do lado do Zimbábue. E Livingstone é uma cidade grande porque, antes do turismo dominar a economia, ela foi a primeira capital da Zâmbia (na época, Rodésia do Norte). Fundada no início do século XX, virou centro administrativo e comercial da colônia britânica, estratégica por ficar perto do Zambeze e da ponte ferroviária que conecta Zâmbia e Zimbábue. Quando o projeto “Cabo ao Cairo” estava em alta, Livingstone virou parada importante — uma cidade de governo, porto e ferrovia muito antes de virar cidade turística.

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A capital foi transferida para Lusaka em 1935, por questões geográficas e administrativas, mas Livingstone já tinha tudo funcionando: ruas amplas, prédios coloniais, escolas, hospitais, serviços. Por isso, mesmo perdendo o título de capital, a cidade continuou grande e relevante — bem diferente de Victoria Falls, que cresceu praticamente só em torno dos passeios pras cataratas. Livingstone não nasceu turística; virou turística depois. E essa origem mais urbana e administrativa ainda dá para sentir no ritmo da cidade.

Houve até discussões para mudar o nome de Livingstone, por ser uma herança colonial, por um nome mais zambiano. Porém, eles desistiram rápido. O nome da cidade já estava totalmente associado ao turismo e à economia local. “Livingstone” aparece em mapas, guias, agências, pacotes e até em busca no Google. Mudar o nome confundiria turistas, custaria caro e ainda traria prejuízos comerciais. 

No fim das contas… Money talks, baby.

Perambulando por Livingstone: malária, quedas de energia, sotaques difíceis, energia instável e elefantes no quintal

Aluguei um Airbnb para ficar em Livingstone e, assim que entrei no quarto, a primeira coisa que me chamou atenção foi um mosquiteiro gigante sobre a cama. Fui pesquisar e descobri que Livingstone, apesar de turística e bem estruturada, fica numa região endêmica de malária. Depois que uma diplomata brasileira morreu de malária, eu desenvolvi um respeito profundo (pra não dizer pavor) pela doença. Resultado: enquanto eu estava no Airbnb, eu passava o tempo inteiro dentro do mosquiteiro, parecia até que eu morava numa barraca de camping improvisada.

Outra coisa curiosa: o anúncio dizia que o quarto tinha ar-condicionado, mas isso era uma meia verdade. Livingstone sofre com cortes de energia o tempo todo, então quem tem algum dinheiro coloca placas solares para quebrar o galho. Só que o sistema solar não aguenta o ar-condicionado. Bastava ligar o bichinho, dava 10 minutos e… puff, caía a energia da cidade. E lá ia tudo para o solar e eu só podia usar o ventilador. Ou seja: ar-condicionado tinha, mas era só de enfeite. Ainda bem que não estava calor de deserto, senão eu ia virar estatística.

Se esse botão do lado do ar-condicionado tivesse desligado, era passar calor. Como era raro ele estar ligado…

Entre um passeio e outro pelas cataratas e pelos parques, eu também resolvi conhecer a cidade. Livingstone até tem alguns museus, mas vou te dizer… nada que vá mudar a sua vida. Tem um museu com uns trens da época colonial que o povo fala mal com gosto: caro e com locomotivas caindo aos pedaços — passei longe. Fui ao Museu de Livingstone, que todo mundo dizia ser imperdível, mas, sinceramente, achei bem comum. A única coisa realmente legal foi ver cartas originais escritas à mão por Livingstone. De resto, nada que justificasse o entusiasmo.

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Agora, o melhor de Livingstone é o povo. Apesar da cidade ser muito turística, os locais são muito simpáticos e adoravam bater papo. O problema é o sotaque, que parece um desafio linguístico avançado. Chegava uma hora que a cabeça começava a doer de tanto esforço para entender. Eu só queria ficar quieto, mas motorista, guia, vendedor… todo mundo queria conversar. E eram tão educados e simpáticos que eu acabava embarcando na conversa, mesmo com meu cérebro pedindo arrego. A cabeça chega doía tentando entender o que eles falavam

Ainda assim, nessas conversas, aprendi algo interessante: a elite comercial de Livingstone é majoritariamente indiana. Isso vem desde o período colonial, quando os britânicos trouxeram muitos trabalhadores indianos para ferrovia. Eles abriram pequenos comércios, cresceram, se multiplicaram e hoje dominam boa parte do varejo — supermercados, lojas, hotéis. Os locais me diziam que os indianos têm dinheiro, mas vivem no básico: gastam pouco, evitam ostentar e reinvestem praticamente tudo. A cultura de disciplina econômica ficou.

Outra coisa que me chamou atenção é que todas as casas em Livingstone têm muros altos ou cercas. Achei estranho, porque a cidade é super segura. Perguntei para um morador e ele respondeu, com a maior naturalidade do mundo, que aquilo não era para ladrões — era para elefantes. À noite, se você não tem muro alto, os elefantes entram nos bairros pra comer as plantas dos jardins das casas. Imagina o susto: você acorda no meio da madrugada achando que é ladrão, abre a cortina e tem um tanque de guerra vivo comendo as orquídeas da sua avó. Você faz o quê? Não pode atirar, porque vai preso. E mesmo se pudesse… a pele do bicho é quase uma blindagem, só fuzil derruba. Perguntei o que as pessoas fazem quando o elefante começa a destruir tudo.

O cara me olhou e respondeu:

— “Você senta e reza pra ele ir embora.”

E você aí preocupado com ladrão roubando seu Fiat Uno 98.

Como funciona o passeio dos rinocerontes em Livingstone — e por que é tão único

Inicialmente eu tinha planejado só fazer a Piscina do Diabo e o safári em Kasane, em Botsuana. Mas aí o cara da agência me ofereceu o tal do “passeio do rinoceronte”. Eu pensei que seria algo bobinho. Ledo engano. Pior que foi um dos passeios que eu mais gostei. Você vai de carro de safári, faz um mini-safári no caminho (vi várias girafas no percurso) e depois desce do carro — sim, desce — para ficar a poucos metros dos rinocerontes, escoltado por guardas armados com fuzis AK-47 pendurada no ombro. Ver rinocerontes em Livingstone foi uma das experiências mais interessantes da minha vida. Eu já tinha visto em zoológico, claro, mas ver o bicho solto, no habitat dele, sem muros te separando, é outra história. O passeio acontece no Mosi-oa-Tunya National Park, uma das áreas mais protegidas da Zâmbia, que sobrevive basicamente com o dinheiro dos turistas. A taxa que você paga mantém guardas (que dormem dentro do parque), veículos, combustível, manutenção — ou seja, cada visitante literalmente banca a preservação da espécie. E é um dos únicos lugares da África onde você pode descer do carro e caminhar até ficar pertinho de um rinoceronte. Em qualquer outro safári, isso seria motivo para expulsão — ou para virar estatística. Nos outros safáris você fica dentro do carro o tempo todo. Em Livingstone, você desce, anda no mato e fica do lado daquele tanque de guerra vivo.

As regras, claro, são rígidas: nada de correr, nada de flash, nada de fazer barulho. Não vai pagar uma de doido. Qualquer movimento brusco pode assustar o animal, e os guias repetem isso até cansar. Eles conhecem o comportamento dos bichos a ponto de identificar de longe quando um rinoceronte está calmo ou irritado. E os sinais são bem claros: orelhas mexendo rápido, pata batendo no chão, cabeça levantando de repente, às vezes o rinoceronte até dá um pinotinho só pra avisar que não está gostando da presença humana. A gente sempre caminha contra o vento, porque se o cheiro humano chegar neles, já era — o olfato deles é excelente, mas a visão é ruim. Também nunca ficamos de frente para o animal; sempre perpendiculares, dificultando que ele nos enxergue bem. Tudo é feito em silêncio absoluto, andando devagar, em fila, e só se aproximando quando o guia dá o sinal. Quando o guia fala “para”, é para parar mesmo. Os rinocerontes do parque são acostumados com humanos, então são mais tranquilos, mas nem por isso é lugar para bancar influenciador de TikTok e querer montar neles. Eles são monitorados 24h por GPS, e antes de entrar no parque o guarda já sabe exatamente onde estão — e fica lá esperando a gente com sua companheira inseparável, a AK-47.

Os guardas são armados, mas não é para “proteger turistas de bichos”. É o contrário: a arma é para proteger os rinocerontes de caçadores ilegais. A Zâmbia perdeu todos os seus rinocerontes algumas décadas atrás por causa do mercado de chifre, que chega a custar 60 mil dólares o quilo. Os rinocerontes que existem hoje foram reintroduzidos a um custo de centenas de milhares de dólares. Cada rinoceronte. Eles praticamente patrimônio nacional. E ali é simples: se alguém fizer alguma besteira que coloque o grupo — ou o rinoceronte — em risco, é o turista que vai ter problema, não o bicho. Os guias falavam meio brincando, meio sério, que o fuzil servia para atirar em caçador ilegal ou em turista que resolvesse pagar de maluco. O guarda me falou meio rindo, meio falando sério: – Se um turista pagar de doido, eu vou ter de um lado um patrimônio nacional e do outro um gringo querendo pagar de maluco e pondo um grupo inteiro em perigo. Em quem você acha que eu vou atirar?

Os caras tem o rinoceronte na nota de dinheiro. Entre eles e você, em quem você acha que o guarda iria atirar?

Eu que não quis pagar para ver se era sério ou zueira.

No fim das contas, foi uma das experiências mais legais que eu já fiz na vida. Aquela sensação de estar vivendo algo que você sabe que nunca mais vai esquecer.

Piscina do Diabo: Hipopótamos, precipícios e peixinhos mordendo à beira do abismo

Então chegou a hora de visitar o principal motivo da minha viagem à Zâmbia: a famosa Piscina do Diabo. Sabe aquelas piscinas de borda infinita que o pessoal posta em Dubai pra tirar onda? É a mesma ideia — só que, em vez de um skyline, você tem uma queda de mais de 100 metros logo depois da borda. Sem exagero: é exatamente isso. A Piscina do Diabo é uma piscina natural formada bem na beira das Cataratas Vitória, do lado zambiano, e só dá pra visitar numa época específica do ano — entre agosto e dezembro, quando o rio Zambeze está mais baixo. Qualquer outra época é praticamente assinar o atestado de óbito. Na seca, as rochas criam uma barreira natural que segura uma parte da água, formando um ponto seguro onde dá pra nadar a centímetros do abismo. E quando digo “parte da água”, é parte mesmo — meio metro fora do local indicado e você vira o Pica-Pau despencando catarata abaixo. Eu via fotos na internet e jurava que tinha um truquezinho, um parapeito escondido. Cara… não tem truque. É um murinho natural de pedra, você sentado e o abismo te olhando de volta.

O passeio começa com um trajeto curto de barco até uma ilhazinha no meio do Zambeze. “Bacana, então tem rio, dá pra nadar?”, você pensa. Não, cara. Nunca. O rio é cheio de hipopótamos, o bicho mais temperamental e assassino entre os gigantes africanos. Ele literalmente mata mais que elefante, leão e leopardo. Juntos. Pra você ter noção, o guia explicou o que acontece quando uma fêmea tem filhote macho: os hipopótamos machos alfa dominam território e veem qualquer outro macho como ameaça. Mesmo um filhote. Então a mãe se afasta do grupo pra esconder o bebê até ele crescer, e nesse período ela vira praticamente uma entidade demoníaca de proteção. O macho, por sua vez, quer trucidar qualquer um que chegue perto do harém. E você ali, tranquilo, passando de barco no meio dessa novela da vida selvagem só para ver uma cachoeira.

Chegando na ilha, o guia dá as instruções — nada de pular, correr ou inventar moda. Incrível que, seja rinoceronte, seja hipopótamo, ou seja piscina suicida, as regras são sempre as mesmas, é só não pagar de doido. Descemos do barco e seguimos caminhando até a piscina. No caminho, já começam as fotos com o precipício a centímetros dos seus pés. JURO. É você andando ali e percebendo que um passo errado significa cancelar o CPF. Ou o passaporte, no caso. É o cenário perfeito do “fulano caiu tentando tirar a melhor selfie”. E, olha, teve momentos em que bateu um medo sincero disso acontecer comigo. Às vezes você vai bater uma foto, o sol te cega, o vento te empurra, e a borda tá ali, firme e forte, te lembrando que a vida é frágil.

Aí chega a hora de entrar na piscina. A borda de pedra segura a água, e a gente entra nadando enquanto o guia avisa: “Os peixinhos mordem, mas não precisa se assustar”. Ah, beleza, é só uma piabinha mordendo. Cara, você bota o pé na água e imediatamente parece que os bichos querem te transformar em aperitivo. No começo dá risada, mas depois irrita. E enquanto você tenta se equilibrar, tem sol te cegando, peixe te beliscando e a correnteza te convidando para se juntar ao Zambeze 100 metros abaixo. Juro. Eu fico de cara como não ali não morre um por semana. Cara, mas a vista compensa tudo: a água despencando na sua frente, o barulho ensurdecedor, o arco-íris aparecendo… É como estar nas Cataratas do Iguaçu, só que na borda delas tomando banho.

Entre rinocerontes a pé e a Piscina do Diabo, a Zâmbia entrou fácil no meu top 3 países até agora. E ainda por cima não choveu nenhum dia, então consegui fazer tudo sem perder nem um minuto da viagem.

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Viagem a BIELORRÚSSIA | Capoeira, repressão e guerra: minha viagem a Minsk #minsk

Belarus — ou Bielorrússia, como a gente costuma chamar — sempre foi um daqueles países que despertavam a minha curiosidade. Um lugar misterioso, com nome estranho e fama de isolado. E foi exatamente isso que encontrei: uma cápsula soviética intacta no coração da Europa. Neste vídeo, conto como foi explorar Minsk, a capital da última ditadura da Europa, onde a estética é brutalista, a política é sufocante e as pessoas aprendem a viver em silêncio. Passei por monumentos gigantescos, um museu da Segunda Guerra que me deixou chocado com a destruição que o país sofreu, e o memorial de Khatyn, um lembrete brutal do que a guerra faz com as pessoas. Mas também encontrei histórias curiosas, como a ONG que virou museu de gatos (!), e uma instrutora de capoeira bielorrussa que aprendeu português sozinha, enfrentou repressão e hoje espalha cultura brasileira por lá. É uma viagem densa, cheia de contrastes, com doses de tristeza, história e, claro, umas boas bizarrices pra completar o pacote.

VIAGEM LAS VEGAS| KÁ du Cirque du Soleil e Fremont Street, a Surpresa Antiga Vegas #freemontstreet

Neste vídeo de O Mundo Numa Mochila, compartilho minha experiência em dois momentos muito diferentes de Las Vegas: a apresentação do Cirque du Soleil e a visita à nostálgica Fremont Street. Comecei a noite com grande expectativa para assistir ao famoso espetáculo “KÀ”, do Cirque du Soleil. Eu já havia me impressionado com uma apresentação do Cirque em Brasília e esperava que a versão de Vegas, sua “sede”, fosse ainda mais espetacular. Mas, para minha surpresa, a experiência não foi nada como eu imaginava. Apesar da estrutura de luzes e efeitos multimídia, o show foi decepcionante, com acrobacias simples, humor sem graça e cenas que pareciam saídas de um programa de comédia de segunda categoria. Infelizmente, não correspondeu ao alto valor dos ingressos e à fama do Cirque. Por outro lado, a visita à Fremont Street, a “Old Vegas”, foi um verdadeiro resgate do charme clássico da cidade. Essa região histórica é famosa por seus cassinos tradicionais, como o Golden Nugget, e pela vibrante Fremont Street Experience, com um teto de LED gigantesco que cria uma experiência audiovisual incrível. Além disso, há apresentações de música ao vivo, artistas de rua e uma energia única que mistura moradores locais e turistas. De toda a minha viagem a Vegas, Fremont Street foi a parte mais divertida e autêntica, capturando a essência de como era a cidade nos seus primeiros anos. Aperte o play e acompanhe comigo essas duas facetas de Vegas: a ostentação moderna do Cirque du Soleil e a energia nostálgica e vibrante de Fremont Street. Não esqueça de curtir, comentar e se inscrever no canal para acompanhar mais aventuras pelo mundo!

VIAGEM AO SENEGAL | O que me surpreendeu (e o que deu errado) em Dakar

Quando pensei em Dakar, imaginei uma capital africana subdesenvolvida, sem estrutura, talvez parecida com a caótica Nuakchott, na Mauritânia. Mas o que eu encontrei me desmontou: arranha-céus, trânsito pesado, academias ao ar livre, libaneses endinheirados, uma estátua feita por norte-coreanos e preços de fazer saudade da Europa. Neste vídeo, eu conto tudo sobre minha experiência em Dakar, capital do Senegal, desde as surpresas boas até os perrengues na fronteira e o impacto de visitar a Ilha de Gorée — com o temido portão do não retorno. Fui visitar um amigo que se mudou para o Senegal e acabei mergulhando num país que quebra vários estereótipos sobre a África. Dakar é moderna, movimentada e cheia de contrastes. Tem engarrafamento, tem praia cheia de gente se exercitando, tem elite libanesa e tem também muita desigualdade, corrupção e preços absurdamente altos. É uma cidade onde costureiro de máquina nas costas é símbolo de masculinidade e onde você pode comer carne assada ao estilo brasileiro numa churrascaria de verdade — com bandeira e tudo! Também relato minha experiência em Gorée, um lugar bonito e ao mesmo tempo carregado de dor. A ilha foi um dos principais pontos de embarque de escravizados no Atlântico, e visitar o portão do não retorno é algo que marca. E como bônus, ainda conto a história da minha ida à Gâmbia e da tentativa de propina que enfrentei ao voltar por terra para o Senegal. Se você gosta de histórias reais, curiosas e cheias de contexto histórico e social, esse vídeo é pra você. Deixe o like, inscreva-se no canal e ativa o sininho — aqui no “O Mundo Numa Mochila”, a gente mostra o mundo como ele realmente é, sem maquiagem de agência de turismo.

VIAGEM A LAS VEGAS| MSG Sphere e os cassinos: Explorando o Fascínio da cidade das luzes #vegas

Cassinos, Shows e a Esfera de Las Vegas Neste vídeo de O Mundo Numa Mochila, compartilho minha experiência explorando os cassinos temáticos, os shows incríveis e a impressionante Esfera de Las Vegas, uma das estruturas mais inovadoras do mundo. Começando pelos famosos cassinos, conto como é visitar os luxuosos Caesar’s Palace, com sua incrível réplica da estátua de Davi, e o cassino inspirado em Veneza, com canais e gôndolas. Mesmo sem jogar, vale muito a pena conhecer a temática de cada um. Mas, se você também não vê graça nas máquinas caça-níqueis, talvez meia hora em cada cassino já seja suficiente para curtir a decoração e seguir adiante. Depois, divido minha experiência assistindo a um show na Esfera de Las Vegas. Com sua tecnologia imersiva de última geração, tela curva 16K e som impecável, a esfera proporciona uma das experiências mais inovadoras e inesquecíveis de entretenimento no mundo. Apesar dos altos custos, foi um investimento que valeu a pena! Por fim, destaco a variedade de shows e atividades que Vegas oferece, desde espetáculos do Cirque du Soleil até tirolesas e montanhas-russas no meio da cidade. Se você está pensando em visitar a cidade mais extravagante dos Estados Unidos, este vídeo é perfeito para te inspirar e dar dicas valiosas. Aperte o play e descubra tudo o que Las Vegas tem a oferecer, das luzes aos shows, dos cassinos às curiosidades. Não esqueça de curtir, comentar e se inscrever no canal para acompanhar mais aventuras pelo mundo! Kit-viagem, os 11 itens essenciais que sempre levo comigo em todas as viagens e sugiro: 📱📷🎥 Meu celular/câmera __ https://amzn.to/3z9vHkS 📷🎥✈️Minha câmera/drone 360º __ https://amzn.to/3Vu6qcu 💾 Cartão de memória __ https://amzn.to/4eBInRQ 🔋 Meu Carregador Portátil __ https://amzn.to/3zoinc8 🎒 Minha mochila __ https://amzn.to/3KUluLB 🔌 Adaptador de tomada universal __ https://amzn.to/3VPEBwG 👜 Organizador de cabos __ https://amzn.to/45CujmF 🎧 Fone cancelador de ruído __ https://amzn.to/4es6PVH 🛁 Kit de higiene bucal para viagem __ https://amzn.to/3VRm6YB 🔋 Kit de adaptadores para viagem __https://amzn.to/3KZkV2Y 💰 Doleira para esconder o dinheiro __https://amzn.to/3VD0rSG Outros produtos que sugiro: 🎒 Mochila mais barata https://amzn.to/3VTIhh5 🧳 Mala de viagem https://amzn.to/3XAxWYG 💲💲 Quer me dar uma força pro canal para eu sempre produzir conteúdo?💲💲 PIX: claudiounb@gmail.com Inscreva-se no canal para sempre receber atualizações Acesse http://www.omundonumamochila.com.br para ter acesso a essa e outras histórias Nos siga no http://www.instagram.com/omundonumamochila para mais fotos de viagem

VIAGEM A LAS VEGAS | Luzes, cassinos e histórias de Uber! #vegas #lasvegas #nevada

Neste vídeo de O Mundo Numa Mochila, compartilho como foi minha primeira experiência em Las Vegas, a icônica Cidade do Pecado. Desde as luzes vibrantes da Vegas Strip até curiosidades impressionantes sobre a cidade, cada momento foi marcado por histórias fascinantes e surpresas inesperadas. Descubra comigo os encantos da Vegas Strip, onde se concentram os maiores cassinos e hotéis do mundo, e a Fremont Street, a antiga Vegas, com seu gigantesco teto de LED e shows visuais incríveis. Conheça também os bastidores de Vegas, como a comunidade subterrânea onde vivem pessoas em situação de rua, um contraste com a ostentação que domina a cidade. Exploro também o lado mais descontraído de Vegas, como as conversas inusitadas com motoristas de Uber, que compartilharam histórias incríveis, desde um pai orgulhoso com um filho rumo à NBA até um cubano que atravessou continentes para realizar seu sonho americano. E, claro, não poderia faltar a experiência gastronômica, ou a falta dela: uma cidade cheia de fast food, mas onde encontrar comida saudável ou um simples supermercado é um verdadeiro desafio. Aperte o play para saber tudo sobre a cidade que nunca dorme, com todos os seus contrastes, extravagâncias e peculiaridades. Não esqueça de curtir, comentar e se inscrever no canal para acompanhar mais aventuras pelo mundo!

VIAGEM A MOÇAMBIQUE | Maputo, ruas comunistas e arquitetura de Eiffel! 2ª parte #maputo #moçambique

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Neste vídeo de O Mundo Numa Mochila, compartilho minha experiência explorando Maputo, a capital de Moçambique, um país repleto de história, cultura e curiosidades. Logo de cara, fui surpreendido por ruas que homenageiam líderes comunistas como Mao Tse Tung e Lenin, refletindo a forte influência do socialismo no período pós-colonial. Descubra também a fascinante Casa de Ferro, projetada por Gustave Eiffel, o mesmo arquiteto da Torre Eiffel. Apesar de sua beleza arquitetônica, a estrutura acabou se tornando inadequada para o calor africano, uma verdadeira fornalha, e hoje é uma curiosa atração turística que simboliza o contraste entre sofisticação e funcionalidade. Além das curiosidades históricas, falo sobre a realidade das ruas de Maputo, como a presença marcante de pedintes e vendedores ambulantes, que trazem um contraste com a infraestrutura moderna da cidade. Apesar disso, a segurança e a hospitalidade do povo moçambicano me impressionaram. Até mesmo um policial que me abordou na rua acabou me dando dicas de viagem, mostrando o quão acolhedor é o país. Moçambique é uma mistura única de desafios e beleza, e Maputo reflete perfeitamente essa dualidade. Venha comigo nesta jornada para descobrir o que torna esse país tão fascinante! Não esqueça de curtir, comentar e se inscrever no canal para acompanhar mais aventuras!

Turismo na COREIA DO NORTE| Diplomata de Havaianas e Muito Medo de Golpe

Quer saber como entrei na Coreia do Norte? Não é turismo solo — é pacote fechado, guia no teu pé e muita paranoia. Quase caí fora achando que era golpe, mas fui até o fim: tirei o visto aqui mesmo no Brasil, conversei com diplomata de Havaianas e fui parar em Pyongyang com tudo pago e os dois rins no lugar. Nesse vídeo conto todos os detalhes da viagem mais surreal que já fiz: do primeiro contato com a agência de turismo em Londres até o carimbo na embaixada norte-coreana em Brasília. Tem história bizarra, festival do Arirang, dilema ético sobre turismo em ditaduras e até gringo inglês com risada de cachorro de desenho. Cola comigo até o fim e descobre como é possível visitar um dos países mais fechados do planeta — e por que talvez você também devesse considerar essa experiência maluca.

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VIAGEM A MOÇAMBIQUE| Maputo, burocracias e a língua portuguesa nas ruas!1ª parte #maputo #moçambique

Neste vídeo de O Mundo Numa Mochila, compartilho minha jornada por Moçambique, o último país que visitei durante minha viagem pelo sul da África. Desde os desafios para conseguir o visto até as primeiras impressões em Maputo, este vídeo revela as curiosidades, histórias e as belezas de um país que fala português nas ruas e tem uma cultura vibrante, apesar de seu passado difícil. Moçambique é fascinante! Desde a história de sua independência até os desafios modernos, como a reconstrução pós-guerra civil e as desigualdades sociais, cada canto do país conta uma história única. Durante minha viagem, explorei a capital Maputo e fiquei surpreso com a organização e simpatia das pessoas. Mesmo sendo um dos países mais pobres do mundo, Moçambique exibe uma resiliência admirável. O vídeo também destaca as curiosidades sobre Maputo, incluindo a famosa estrutura de ferro projetada por Gustave Eiffel, o mesmo arquiteto da Torre Eiffel, e como o português é amplamente falado pelas ruas, tornando a interação com os locais ainda mais especial. Claro, nem tudo foi fácil: enfrentei uma verdadeira saga para conseguir o visto, desde a burocracia até custos absurdos, passando por imprevistos no aeroporto e complicações na chegada ao país. Mas, no final, tudo valeu a pena. Moçambique me surpreendeu com sua cultura, sua história e sua hospitalidade, e espero que você possa sentir um pouco disso neste vídeo. Aperte o play para viajar comigo por Moçambique e descobrir o que torna este país tão único. Não se esqueça de curtir, comentar e se inscrever no canal para acompanhar as próximas aventuras! Kit-viagem, os 11 itens essenciais que sempre levo comigo em todas as viagens e sugiro: 📱📷🎥 Meu celular/câmera __ https://amzn.to/3z9vHkS 📷🎥✈️Minha câmera/drone 360º __ https://amzn.to/3Vu6qcu 💾 Cartão de memória __ https://amzn.to/4eBInRQ 🔋 Meu Carregador Portátil __ https://amzn.to/3zoinc8 🎒 Minha mochila __ https://amzn.to/3KUluLB 🔌 Adaptador de tomada universal __ https://amzn.to/3VPEBwG 👜 Organizador de cabos __ https://amzn.to/45CujmF 🎧 Fone cancelador de ruído __ https://amzn.to/4es6PVH 🛁 Kit de higiene bucal para viagem __ https://amzn.to/3VRm6YB 🔋 Kit de adaptadores para viagem __https://amzn.to/3KZkV2Y 💰 Doleira para esconder o dinheiro __https://amzn.to/3VD0rSG Outros produtos que sugiro: 🎒 Mochila mais barata https://amzn.to/3VTIhh5 🧳 Mala de viagem https://amzn.to/3XAxWYG 💲💲 Quer me dar uma força pro canal para eu sempre produzir conteúdo?💲💲 PIX: claudiounb@gmail.com Inscreva-se no canal para sempre receber atualizações Acesse http://www.omundonumamochila.com.br para ter acesso a essa e outras histórias Nos siga no http://www.instagram.com/omundonumamochila para mais fotos de viagem

Viagem a Belize: multiculturalismo, dólar belizense,  desafios locais e os paraísos chamados Caye Caulker e Shark Ray Alley

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Belize sempre foi um país que me fascinou. É uma daquelas regiões que parecem ter se perdido do resto do continente. Enquanto seus vizinhos falam espanhol e carregam a herança das colônias espanholas, Belize segue seu próprio caminho com o inglês como língua oficial, legado da colonização britânica. É o único país da América Central continental com esse perfil, quase como uma Guiana da América Central, sendo deslocado linguisticamente e, de certa forma, culturalmente também. Assim como nas Guianas da América do Sul, percebi que entre os centro-americanos, quase ninguém sabia direito o que tinha por lá. Muita gente com quem eu conversava em El Salvador ou Honduras me olhava com cara de interrogação quando eu dizia que meu próximo destino era Belize. “Mas o que tem lá?”, perguntavam. E, honestamente, era essa mesma pergunta que me atiçava.

Mas havia também um outro motivo bem mais prático: o mar. Eu já tinha visto alguns vídeos de uma galera fazendo snorkel em Belize, nadando no meio de tubarões e arraias, num lugar chamado Shark Ray Alley, e desde então fiquei obcecado com a ideia de viver aquilo. Não era uma aventura estilo Discovery Channel com jaula de ferro nem cilindro de oxigênio — era simplesmente colocar a máscara, cair na água e nadar com os bichos. E, por mais contraditório que pareça, a ideia de nadar cercado por tubarões naquele cenário de águas cristalinas me transmitia mais curiosidade do que medo.

Além disso, Belize me parecia ter um tipo de beleza ainda meio bruta, não domesticada. Eu queria ver isso de perto: esse país que ninguém conhecia direito, que tinha praias caribenhas, floresta tropical, influência maia, rastafári, placas em inglês e até mesmo fronteiras ainda em disputa com a Guatemala. Um país estranho aos vizinhos e ainda mais estranho para quem o visita pela primeira vez — ou seja, exatamente o tipo de lugar que eu gosto de colocar na minha mochila.

Em alguns lugares da América Central quando perguntava se era bom de fazer snorkeling em uma praia específica, as pessoas me diziam “cara, não é como Belize, mas é muito bom”. Então, assim, nadar com peixes em Belize devia ser muito bom mesmo.

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O motivo de haver tantos tubarões por lá, especialmente nas áreas de snorkel como Caye Caulker, a região que eu mais queria conhecer, tem a ver com uma combinação rara de fatores ambientais, culturais e até econômicos. Primeiro, a costa de Belize abriga a segunda maior barreira de corais do mundo, atrás apenas da Austrália, o que cria um ecossistema marinho riquíssimo, com abundância de peixes, crustáceos e outras espécies que fazem parte da cadeia alimentar dos tubarões. Além disso, ao contrário de outros países do Caribe que historicamente incentivaram a pesca predatória de tubarões ou simplesmente nunca regulamentaram o setor, Belize implementou medidas de conservação bem antes dos vizinhos. Em lugares como Caye Caulker, é comum ver guias alimentando os tubarões com pequenos peixes para atrair os bichos e proporcionar aquele visual cinematográfico durante os mergulhos. Os ambientalistas odeiam isso, mas enfim, os tubarões amam. O resultado é esse: um país pequeno, com mar calmo, água cristalina e uma concentração de tubarões costeiros que nenhum outro vizinho consegue igualar.

História de Belize

A história de Belize é marcada por uma trajetória peculiar dentro da América Central. Originalmente habitada por povos maias, a região foi alvo de disputas coloniais entre espanhóis e britânicos a partir do século XVII. Embora a Espanha alegasse soberania sobre o território, foram os britânicos que, pouco a pouco, consolidaram sua presença, inicialmente com assentamentos de madeireiros conhecidos como “Baymen”. Esses colonos extraíam mogno e outros recursos da floresta tropical, estabelecendo um sistema econômico voltado para a exportação à metrópole. Apesar das tentativas espanholas de expulsá-los, os britânicos resistiram, e após diversos tratados e conflitos diplomáticos, a Coroa britânica formalizou o controle da região em 1862, batizando-a oficialmente como Honduras Britânica. Então a Inglaterra tinha a Honduras Britânica na América Central e a “Guiana Britânica” na América do Sul, atual Guiana. Isso mostra como Belize sempre foi visto como uma exceção regional, mais ou menos um Espírito Santo da América Central, mais alinhado com o mundo anglófono do que com seus vizinhos centro-americanos.

E essa origem colonial é a chave para entender por que Belize não virou um país de falantes de espanhol como os demais da América Central. Ao contrário de países como Honduras ou Guatemala, que foram colônias espanholas e herdaram a língua e instituições da Coroa espanhola, Belize manteve-se sob controle britânico por mais de um século, consolidando o inglês como língua oficial, o sistema jurídico de common law e uma estrutura administrativa ao estilo britânico. Até sua independência, conquistada apenas em 1981, Belize permaneceu culturalmente isolado de seus vizinhos hispânicos. Isso não quer dizer que o espanhol não esteja presente — ele é amplamente falado como segunda língua, especialmente nas regiões próximas à fronteira com a Guatemala e o México. Mas o país se estruturou com base no inglês, e essa identidade linguística diferenciada acabou reforçando seu status de “peça solta” no quebra-cabeça centro-americano.

Vida em Belize

Assim como diversos países caribenhos, Belize é um mix de descendentes de africanos que foram trazidos como escravos (que eles se referem como “criolos”), maias, ingleses (hoje bem poucos), árabes, indianos e muitos, mas muitos descendentes de central americanos que fugiram para lá como refugiados das diversas guerras civis que ocorreram pela América Central (notadamente de El Salvadorenhos, Guatemaltecos, Hondurenhos e Nicaraguenses) e mexicanos que basicamente foram procurar um lugar para viver. Então, amigo, o país tem como língua oficial o inglês, mas muita gente por lá fala espanhol, muita mesmo. “Aqui tem muita terra e somos apenas 400.000 habitantes, então tem espaço para todo mundo” – me disse um cara de Belize. Lá, o multiculturalismo não é só marcante, como é celebrado. Para mim foi uma sensação semelhante a que vi no Suriname.

Acaba então que lá a coisa se inverte em relação a San Andrés na Colômbia ou Roatan em Honduras, os descendentes de africanos falam só inglês e saem em desvantagem com os descendentes de latinos que aprendem inglês na escola e espanhol em casa com os pais. Era engraçado, qualquer vendinha que eu e Bruna entrava, apesar da gente falar inglês, os vendedores iam buscar um latino e ele já começava a conversar em espanhol com a gente. Isso quando não era um mini-mercadinho, porque aí parecia que todo mini-mercadinho era de um chinês. 

Outra coisa interessante, eles têm uma moeda própria, o dólar belizense, mas na verdade a economia é dolarizada de fato. Cada dólar americano valia dois dólares belizenses. Então você tem que perguntar em qual dólar tá os preços, porque às vezes você pode se dar mal. Na verdade, por conta disso eu vi porque que as coisas são tão caras para turista no Caribe. Cara, enquanto eu e Bruna estávamos economizando cada centavo de dólar para poder fazer os passeios, um gringo simplesmente tirou um calhamaço de notas de dez dólares do bolso e deu de gorjeta pro pessoal do barco. Juro, pelo que eu tinha conseguido contar, era ao menos 80 dólares de gorjeta. Quase 500 reais. Ali… de “gorjeta”. Aí é mole. Eu nasci no país em que um dólar é seis reais. Ele nasceu no país em que um dólar é um dólar. O problema é que acaba o passeio e todo mundo do barco fica meio que esperando que você deixe um agrado. Se eu deixei? Rapaz, eu dei um abraço nos caras e vida que segue.

Em Cozumel, onde nós fomos antes, chegamos a pegar um passeio de barco onde a tripulação ficou uns 10 minutos explicando o quanto gorjeta era importante pro trabalho deles. E qual foi o problema? Mano, no barco só tinha latinos. Era eles pedindo gorjeta e cada um olhando pros lados fingindo que não era com eles. Eu, obviamente, fiquei olhando para a água procurando peixinho. E nada dos caras ganharem gorjeta.

Cara, só para você ter uma ideia, em uma outra vendinha, teve uma gringa que foi comprar um suco e a moça da vendinha falou que era vinte dólares. Primeiro que, mano, quem paga 120 reais em um suco, pelamordedeus. Ela foi lá e deu 20 dólares americanos. Aí a mina da vendinha falou “não moça, são 20 dólares de Belize, então são 10 dólares dos Estados Unidos”. O suco era “apenas” 60 reais. Rapaz, depois a que moça da vendinha deu o suco para a gringa, ela pegou os 20 dólares de Belize de troco (que dá o total de 10 dólares americanos) e simplesmente pôs na caixinha de gorjeta de papelão que a vendinha tinha bem na frente. Sessenta reais, assim, de graça. De gorjeta. Cara, aí fica fácil entender porque eles devem odiar atender latino como a gente que economiza cada dólar. 

Nadando com os tubarões, a caminho de Caye Caulker

Como eu não queria correr o risco de cair em uma roubada igual foi a natação com os porcos de Bahamas, desde o Brasil eu já fui reservando o barco para a gente ir ver os tubarões  em Belize. Paguei caro, bem caro. Poderia ter pago mais barato se eu descesse em Belize e tentasse negociar direto no porto? Sim. Eu queria arriscar? De forma alguma.

Interessante que ao contrário de todos os outros países que visitei de cruzeiros, Belize foi o único até agora em que o navio não atracou. Cara, o navio ficava no meio do oceano, aí vinha um barquinho pegar a gente e levar para o continente. Mas, assim, ainda foi uns 20 minutos nesse barquinho, era longe mesmo. 

Isso acontece porque o litoral de Belize, especialmente na região da capital, é raso e protegido por uma extensa barreira de corais — a segunda maior do mundo como já falei. Essa formação natural, embora seja ótima para preservar a biodiversidade marinha e proporcionar águas calmas e cristalinas, torna impossível que navios de grande porte se aproximem da costa sem risco de encalhar. Não existe um porto com profundidade suficiente para receber cruzeiros diretamente, então a solução é o chamado “tender service”: os navios de cruzeiro ficam fundeados em alto-mar, e pequenos barcos fazem o translado dos passageiros até a terra firme.

Então descemos no porto e já fomos encontrar a menina da agência que tinha negociado comigo o passeio. Interessante que ela já veio conversando comigo em espanhol. Me explicou que ela era descendente de mexicanos e que a avó dela, mesmo tendo nascido em Belize, não falava inglês até hoje. A guia me falou que só falava inglês porque tinha ido a escola, porque os mais velhos da família dela não falavam inglês até hoje, só os jovens porque aprenderam na escola. 

Pegamos o barco e fomos fazer o nosso passeio. E, cara, chegar a Caye Caulker foi bem demorado. 

Caye Caulker realmente era um paraíso. Cara, não havia nem carros por lá. Travessias mais longas ou eram feitas de carrinho de golfe ou de trator. Assim que chegamos, aportamos em um restaurante com preços abusivos em dólares que estava bem aquém do que poderíamos pagar. Dólares de Belize? Não, dólares americanos mesmo. Coisas absurdas, cara, tipo sessenta dólares americanos para comer qualquer peixinho mequetrefe lá. Os gringos foram pedindo todos os itens do menu e eu e Bruna fomos atrás de uma vendinha na ilha para poder comprar ao menos uma Coca Cola para tomar. Acabamos achando um mini mercadinho de, vejam você, um chinês. Engraçado que o mercadinho chamava “Amigo market”. Então a gente tinha certeza que o dono era latino. Chegando lá era um chinês. Tentei bater um papo com ele para saber como era a vida de um chinês em Belize, mas ele não quis nem papo. Só falou “obrigado” e tacou a gente para fora da vendinha. De “amigo”, o mercado só tinha o nome. 

Dá para ver os tubarões na água, são as manchas

Na volta a gente viu uma garçonete correndo aos gritos mandando um barco voltar. Acredita que um gringo quis dar calote? Eu posso contar cada centavo de dólar que eu gasto, mas calote nunca vão botar na nossa conta. Gringo miserável e caloteiro, rapaz.

Depois voltamos para o barco e de lá fomos fazer o passeio dos tubarões. Chegando lá, foi, impressionante. Cara, eu já tinha visto alguns tubarões nadando em Noronha, mas era sempre um ou outro e lááá longe. Onde a gente parou era quase um cardume. E não só de tubarões, mas tubarões e arraias também. Era tanto tubarão que você quase que se esbarrava neles. Foi fascinante demais.

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Depois ainda fomos nadar com peixes em um local com corais, mas nem de longe foi tão legal quanto ver os tubarões. Um dos caras do barco era engraçado demais. Ele era descendente de latinos, falava espanhol e contou várias curiosidades sobre Belize. Uma delas é que quando ele era jovem, as crianças que não se comportavam eram levadas para cortar cana debaixo do sol escaldante de meio dia. Como ele sabia disso? Segundo ele, ele acabou ficando muito bom em cortar cana por conta disso. 

Perambulando pela capital, a Cidade de Belize

Depois que voltamos do nosso passeio com os tubarões e de eu dar o abraço de gorjeta para a tripulação fomos dar uma volta pela cidade de Belize. Cara, vou te contar, caminhar pela Cidade de Belize foi aqueles momentos em que você dá valor em ter nascido no Brasil. Cara, a cidade era toda zoada, suja, com umas construções caindo aos pedaços. Não vimos um edifício de apartamentos ou coisa do tipo. Sério, era uma desolação parecida com o que eu vi em Georgetown quando viajei à Guiana ou ao Haiti. 

Visitamos a “Biblioteca Nacional” que devia ser menor que a biblioteca que tinha na minha escola no Maranhão e o “Museu Nacional” que devia ser menor do que a casa que muita gente mora no Brasil. O melhor do museu mesmo foi só que lá tinha um ar-condicionado moendo de frio, então valeu os sete dólares americanos que tivemos que pagar por pessoa para poder entrar. O prédio do museu nacional era uma ex-prisão, então até tinha umas coisas legais por lá. Além disso, também tinha uma ala sobre escravidão que eu achei bem interessante.

Biblioteca Nacional

Mas o que mais me chamou a mesmo a atenção foi o fato de que a gente estava caminhando na capital de um país e simplesmente quase não havia ninguém nas ruas. Em plena quarta feira. Cara, aquilo me chamou a atenção demais. Andamos, caminhamos pelas ruas e depois voltamos pro nosso barco que estava lá no meio do mar. Infelizmente no outro dia, ainda tínhamos mais uma parada marcada em outra praia do México. Mas, cara, acredita que o barco não parou? O comandante do navio falou que não conseguiu fazer as manobras porque segundo ele “o vento tava muito forte” e simplesmente cancelaram um dia nosso de passeio. Cara, o barbeiro do italiano não conseguiu fazer a baliza direito e cancelou o nosso passeio. Pelo menos deu para a gente descansar um pouco. E bem, ainda bem que Belize deu certo, porque foi o local mais legal que eu fui em toda essa minha viagem.

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